Elio Nowacki entrevista Carlos Tramujas
Fonte: BONSAI CAMPO (2007)
Fonte: RICARDO PAIVA (2009)
Fonte: RICARDO PAIVA (2009)
1. A desfolha é um dos assuntos que gera informações controversas. Você acha que este assunto merece uma melhor atenção por parte dos bonsaístas?
A desfolha sem dúvida é uma das técnicas utilizadas no bonsai que merece muita atenção. Normalmente as pessoas que estão iniciando na arte, têm certo receio em realizá-la, até por ainda não terem muita intimidade com as plantas. Para quem não está familiarizado com o assunto, arrancar todas as folhas de uma árvore pode parecer um tanto agressivo, além de gerar dúvidas com relação à integridade da planta. Espero poder esclarecer aqui os principais pontos relacionados com a desfolha.
2. Quais os principais motivos que devem levar alguém a fazer desfolha?
Realizamos a desfolha com as seguintes finalidades:
- - Reduzir o tamanho das folhas da árvore.
- - Aumentar a ramificação dos galhos.
- - Estimular o crescimento de certas regiões da planta, inibindo o desenvolvimento de outras.
- - Troca das folhas em árvores de folhas perenes, eliminando as folhas velhas, danificadas, e com o aspecto feio.
- - Acentuar a coloração outonal em árvores de folhas caducas.
- - Realizar aramações durante o verão com a finalidade de refinar a estrutura da árvore.
3. Sabemos que muitas espécies não aceitam a desfolha. Poderia nos exemplificar? E por quê?
Já as pitangas, jabuticabas, e outras mirtáceas toleram perfeitamente a aplicação desta técnica. A conclusão a que chegamos com relação a esta técnica é que à medida que adquirimos mais experiência dentro da arte e desejamos cultivar bonsai com mais intensidade, a desfolha se torna indispensável.
4. No caso das caducifólias, devemos fazer a desfolha se elas por si próprias não se desfolharem na época propícia?
5. E a desfolha parcial para incentivar a brotação. Poderia nos esclarecer?
A desfolha parcial já foi comentada anteriormente, e é uma das maneiras de estabelecermos um equilíbrio na harmonia entre todas as zonas da árvore. Podemos utilizá-la para engrossar um primeiro galho, por exemplo, deixando-o crescer à medida que desfolhamos o restante da planta, ou mesmo para engrossar o ápice no caso de uma poda radical com a substituição do líder. O importante a entendermos no caso da desfolha parcial, é que o elemento da planta que continuar com folhas, seja o galho, o ápice ou mesmo um pequeno broto, ele será privilegiado em crescimento, em relação ao restante dos elementos que formam a estrutura da árvore e que foram desfolhados.
Quando falamos em desfolha parcial total da planta, nos referimos na eliminação de certa porcentagem da massa verde, para facilitarmos a ventilação e a entrada do sol, como no caso das Bougainvilleas (Primaveras) que brotam com muito vigor, formando massas de folhas demasiadamente densas e compactadas. É importante nestes casos eliminarmos as folhas velhas e grandes e tentarmos fazer com que a copa da árvore respire melhor. Desta forma também prevenimos que os pequenos brotos situados no interior da árvore não sequem por falta de luz. Esta operação é considerada mais uma limpeza do que propriamente uma desfolha.
6. Mesmo considerando que nosso país tem dimensões continentais, Carlos, dá para formular uma regrinha sobre desfolha com relação às épocas?
Se entendermos o processo, podemos realizar a desfolha, mesmo sem olharmos para o calendário. O primeiro que devemos observar é que as folhas estejam realmente maduras, ou seja, no máximo do seu tamanho natural e desenvolvimento. O segundo ponto está em observarmos o crescimento geral da planta. O momento da desfolha é justamente entre uma fase de crescimento e outra. Isto pode parecer confuso, mas é fácil de entendermos se observamos, por exemplo, o crescimento de um Acer que começa a se desenvolver com vigor na primavera, onde os brotos podem atingir mais de um metro se deixados crescerem livres. Após este período de brotação intensa, a planta para de crescer por um período, como se estivesse descansando, isto ocorre normalmente no final da primavera e continua até praticamente a metade do verão, onde reinicia seu crescimento, só que desta vez com menos vigor e intensidade. O ponto correto para realizarmos a desfolha é momentos antes de a planta reiniciar esta segunda fase de crescimento. No caso do Acer e das caducifólias em geral é mais fácil identificarmos esta situação, mas com um pouco de prática passaremos também a identificar nas demais espécies. Estes “melhores momentos” é que definem a quantidade de desfolhas que podem ser realizadas durante o ano, sem estressar demasiadamente as plantas. As bougainvilleas, por exemplo, podem facilmente ser desfolhadas duas ou até três vezes ao longo do ano, principalmente em regiões com climas favoráveis e sem invernos definidos. Como regra básica para quem esta começando, a metade do verão sem dúvida, é o melhor momento. Outro conselho é que comecem apenas com uma desfolha por ano independente da planta, até conhecerem melhor as espécies com que estão trabalhando no momento.
7. Planta debilitada ou doente pode ser desfolhada?
Este é um dos principais comentários a ser feito nesta entrevista. Não adianta de nada conhecermos as técnicas em profundidade, aplicá-las corretamente, se nossas árvores não têm condições de suportá-las. A desfolha jamais deverá ser aplicada em plantas debilitadas, fracas ou mesmo doentes, com risco de perdermos galhos inteiros e até mesmo a planta toda. A recuperação da planta após a eliminação total das folhas requer uma energia muito grande, portanto devemos antes de fazer a desfolha estarmos atentos para três pontos importantes O primeiro está relacionado com a adubação, pois se adubarmos a planta no momento da desfolha existe a probabilidade das folhas novas virem ainda maiores que as anteriores. Para evitarmos esta surpresa é conveniente realizarmos a ultima adubação duas ou três semanas antes de desfolharmos, sendo que voltaremos a adubar se for necessário, somente depois do amadurecimento completo das folhas novas. O segundo ponto diz respeito à aplicação da desfolha na época mais adequada, principalmente em regiões com estações definidas, com é o caso do sul do Brasil. Se desfolharmos muito tarde nestas regiões, a planta não terá capacidade de brotar antes de entrar no outono e enfraquecerá bastante. O terceiro ponto está diretamente relacionado com os cuidados básicos após a desfolha. Não devemos esquecer que a absorção de água pelas plantas com a ausência total de folhas é muito pequena ou quase nula, portanto é conveniente também controlarmos a frequência da rega, deixando que o substrato seque levemente entre uma rega e outra. Após a brotação, voltaremos a regar de forma normal. O excesso de água no momento da brotação também poderá aumentar significativamente o tamanho das folhas. O sol é um redutor natural do tamanho das folhas, portanto o melhor após a desfolha é colocarmos a planta a pleno sol, se por acaso for uma espécie mais sensível, deveremos protegê-la apenas nas horas mais quentes do dia. Plantas cultivadas em ambientes sombreados têm naturalmente as folhas maiores do que aquelas cultivadas a pleno sol. Se por acaso temos uma planta doente ou debilitada, deveremos sempre em primeiro lugar recuperar esta planta, antes de aplicarmos qualquer tipo de técnica de poda ou de modelagem.
8. Cronologicamente, desfolha, aramação, poda de raízes e transplante podem ser feitos num mesmo momento?
Podem em algumas espécies, desde que sejam previamente preparadas para aguentar isso tudo de uma só vez. Como a maioria das desfolhas é realizada em pleno verão, este sem dúvida não seria o melhor momento para transplantarmos, mas o que podemos fazer sem dúvida é passar um bom arame. As espécies de Fícus em geral toleram a aplicação destas operações simultaneamente. Na Espanha, onde trabalhei, os Fícus eram desfolhados, aramados e transplantados de uma só vez e durante o pleno verão. Os motivos principais são, que a brotação da primavera como é mais intensa resultava em brotações muito vigorosas e, portanto com folhas muito grandes. Outra coisa é que ajudava também a aliviar um pouco o excesso de tarefas com as demais espécies na entrada da primavera. As técnicas de desfolha e aramação quase sempre devem caminhar juntas, uma complementando a outra.
9. Carlos, muito se fala em desfolha manual ou cortando a folha com tesoura preservando o pecíolo. Poderia nos esclarecer esse assunto?
A desfolha com a pinça desfolhadora ou mesmo com a tesoura é muito trabalhosa, principalmente em árvores grandes e frondosas e muitas vezes durante o processo dá vontade de arrancarmos as folhas com as mãos para terminarmos de uma vez.
Antes de comentarmos sobre plantas específicas, devemos entender o que nos leva a optar por um método ou por outro. Sempre o método manual, arrancando as folhas com os dedos será o mais fácil e o mais rápido, mas para aplicá-lo com segurança, antes devemos observar as gemas dormentes nas axilas das folhas (ponto de inserção do pecíolo no galho) e fazermos um teste. Arrancamos algumas folhas isoladamente e observamos o estado em que ficou a gema dormente. Em algumas situações quando arrancamos uma folha, a gema se destaca do galho e acaba saindo junto com ela, presa ao pecíolo, em outros casos, apesar da gema permanecer no galho fica muito danificada. Um dos fatores de extrema importância que ajuda a minimizar estas dificuldades é que sempre devemos levar em conta o sentido em que arrancamos as folhas e este deverá ser sempre no sentido da extremidade do galho. O Acer palmatum é uma espécie que devemos desfolhar sempre utilizando a tesoura, pois suas gemas são muito sensíveis. A maneira correta de fazermos é cortarmos os pecíolos das folhas pela metade, sendo que depois de alguns dias, estes cairão sozinhos. No Acer buergerianum, por exemplo, a desfolha pode ser manual, e o que fazemos é fecharmos a mão na base do galho com uma leve pressão e puxamos em direção a sua extremidade, arrancando desta forma todas as folhas. Se por acaso não saírem todas, no final do processo repassamos galho por galho eliminando as que permaneceram, mas sempre prestando a atenção no sentido em que as arrancamos. Com os fícus em geral podemos proceder da mesma forma, assim como com as jabuticabeiras, pitangueiras, ulmus e muitas outras espécies.
Bem, acho que tivemos uma verdadeira aula sobre desfolha que, com certeza, estará ajudando em muito a todos nós praticantes dessa nobre arte. Muito obrigado Carlos.
Espero em outros momentos poder voltar a dar a minha contribuição para divulgação à arte do bonsai
Entrevista realizada por Elio Nowacki, presidente da APB -Associação Paranaense de Bonsai em Julho / 2007.


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